foro de são paulo
foro de são paulo

Usada como espantalho pelo presidente para reenergizar sua base de tempos em tempos, a entidade já viveu dias melhores.

Com o refluxo da onda vermelha na América Latina a partir de 2016, que tirou a esquerda de países como Brasil, Uruguai, Chile, Bolívia e Equador, o Foro busca novo espaço para resistir à ascensão da direita no continente.

“Eu acho até graça quando fico sabendo das lives do Olavo que falam do Foro”, diz a secretária-executiva da entidade, a petista Monica Valente. “Viramos o novo eixo do mal.”

Hoje são 122 partidos membros, de 26 países da América Latina e do Caribe. O PT tem grande influência sobre a entidade e sempre indicou o secretário-executivo, espécie de coordenador do Foro.

Do Brasil participam também PC do B, PDT e PCB. O PSB e o PPS deixaram a organização nos últimos meses, insatisfeitos com a influência do regime venezuelano.

O encontro inaugural foi pensado como um evento único. Não havia o nome “Foro”, nem a ideia de criar uma entidade permanente, que só viriam depois. Desde então já houve 25 reuniões, a última delas em julho de 2019 em Caracas.

Um novo encontro estava marcado para este ano no México, mas foi adiado por causa da Covid-19. Enquanto isso, a organização se mantém ativa por meio de reuniões online. Uma das últimas, em maio, debateu a “unidade e solidariedade anti-imperialista ante a pandemia”.

A imagem do grupo como um bicho-papão, segundo Valente, é uma caricatura da extrema direita.

“Tem um elemento propagandístico, de fake news, em que você vai contando uma mentira e ela vira verdade. É igual ao kit gay do [Fernando] Haddad”, afirma ela, rem referência a uma acusação falsa de que o PT incentivaria práticas homossexuais nas escolas.

O Foro, diz a dirigente, é um espaço de debate de ideias, não de imposição de diretrizes. “Todo mundo tem liberdade de fazer o que acha, as decisões são tomadas por consenso.”

Algumas das características do grupo o expuseram a ataques ao longo de sua existência. O principal é o fato de dar abrigo a ditaduras, a começar pela cubana.

A própria ideia de reunir os partidos latino-americanos de esquerda surgiu de uma conversa de Lula e Fidel Castro. Hoje, além do Partido Comunista Cubano, fazem parte as legendas que sustentam os regimes ditatoriais da Nicarágua e da Venezuela.

Também houve flerte com entidades que adotavam a guerrilha, sobretudo as Farc colombianas, que nunca participaram formalmente do Foro, mas mandavam observadores para as primeiras reuniões.

Os laços só foram cortados a partir dos anos 2000, quando a esquerda que chegava ao poder pela via eleitoral queria se distanciar da via armada (hoje, as Farc integram o Foro como um partido político legalizado).

Para Valente, o que caracteriza os integrantes do Foro é serem “antineoliberais e anti-imperialistas”.

“Democracia é um corte importante, claro, agora, a democracia não se resume a eleições. Vejam as últimas no Brasil como foram. Reconhecemos o resultado, mas não significa que achemos que tenham sido limpas e corretas”, diz.

A presença da Venezuela, afirma, não causa embaraço. “Você pode falar o que for da Venezuela, mas não tem país que mais fez eleição.”1 6

Secretário-executivo do Foro de São Paulo entre 2005 e 2013, Valter Pomar era um jovem militante petista de 23 anos frequentando os corredores do Hotel Danúbio na primeira edição.

Coautor de “Foro de São Paulo – Construindo a Integração Latinoamericana e Caribenha” (editora Fundação Perseu Abramo, 2013), ele identifica algumas fases na existência da organização.

“Em boa parte dos anos 1990, o Foro era irrelevante, a gente só governava Cuba”, diz. “Só depois alcançou êxito. Veja o que aconteceu a partir do final dos anos 90, com as vitórias de Chávez [em 1998] e Lula [em 2002]. Contribuiu muito para as vitórias que a esquerda teve no período seguinte.”

Um momento de inflexão, acredita Pomar, foi a crise financeira de 2008, que abalou o capitalismo mundial.

“A partir de 2008, a pauta era diagnosticar a crise mundial. Uma avaliação foi de que era a marcha fúnebre do neoliberalismo. Outro setor achava que os EUA dobrariam a aposta no modelo neoliberal. Nunca houve um desfecho para essa polêmica”, afirma.

Ele ironiza a tentativa dos olavistas de caracterizarem o Foro como “uma maçonaria”, mas diz que a direita tem alguma razão em se inquietar.

“Estão corretos em se preocupar, porque o Foro potencializou a esquerda latino-americana. Você pode dizer que está debilitado, pode também dizer que está se preparando para uma nova expansão. A esquerda vai voltar ao governo e o Foro vai ser muito necessário”, diz.1 40

Manuela D'Avila (PC do B), e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), na primeira entrevista coletiva como candidatos à Presidência da República, em 2018

Para o cientista político Fernando Abrucio, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), “quanto mais o Foro de São Paulo foi perdendo relevância, mais ganhou importância para seus detratores”.

Lula deixa a carceragem da Polícia Federal de Curitiba (PR), após decisão da Justiça Federal de expedir o alvará de soltura do líder petista

“Na década de 90, ele foi importante para os líderes de esquerda conhecerem pessoas, formarem redes políticas. Mas a partir do segundo governo Lula [2007-10], perdeu importância completa. Não era mais necessário. As articulações eram feitas pelos governos”, afirma.

Segundo Abrucio, vilanizar o Foro é um discurso que atende à direita, sobretudo a mais ideológica. “Esses grupos funcionam na lógica de construir um inimigo interno. Identificar o comunismo como ameaça é algo muito solto. O Foro deu materialidade a esse inimigo.”

O professor acredita que o grupo hoje paga um preço político por sempre ter tolerado a esquerda não-democrática. “Sempre fecharam os olhos para a repressão em Cuba, e para as próprias Farc durante um bom tempo”, diz.

Ele é cético quanto à capacidade de a entidade readquirir relevância para novamente ajudar a esquerda a voltar ao poder, como fez nos anos 90. “O momento da esquerda é de reorganização interna e renovação. Mas não acho que vai ser o Foro que fará isso.”

FORO DE SÃO PAULO

  • Fundação: 2 a 4 de julho de 1990 (ainda sem esse nome)
  • Local: Hotel Danúbio, no centro de SP
  • Membros na fundação: 53 partidos, de 14 países
  • Membros hoje: 122 partidos, de 26 países ou territórios
  • Principais organizações: PT (Brasil), Partido Comunista (Cuba), Frente Sandinista (Nicarágua), Frente Ampla (Uruguai), PSUV (Venezuela), Partido Socialista (Chile)

Linha do tempo

  • 1990: grupo nasce em reunião em SP promovida pelo PT
  • 1995: em sua quinta edição, no Uruguai, encontro tem as Farc como membro observador
  • 1997: filiação do Movimento Tupac Amaru, do Peru, que havia promovido sequestro na embaixada do Japão em Lima, é rejeitada
  • 1999: posse de Chávez na Venezuela dá início à onda vermelha no continente, fortalecendo o Foro
  • 2002: Olavo de Carvalho publica artigo na Folha em que diz que Foro é a “entidade política mais poderosa do continente”
  • 2005: Lula impede participação das Farc em evento de 15 anos do grupo, em São Paulo
  • 2010: em evento em Buenos Aires, Foro pede saída pacífica para conflito na Colômbia, mas não condena Farc
  • 2013: grupo faz evento especial para homenagear Hugo Chávez, morto em março daquele ano
  • 2014: em artigo na Folha, Jair Bolsonaro diz que Foro é “o que há de pior na América Latina”
  • 2016: impeachment de Dilma marca refluxo da onda vermelha
  • 2019: Foro faz encontro na Venezuela promovido por Nicolás Maduro
  • 2020: encontro no México é adiado por causa da pandemia da Covid-19

Além disso, o surgimento de outras iniciativas globais, como o Grupo de Puebla, que reúne ex-presidentes esquerdistas do continente, e a Internacional Progressista, criou uma certa sombra à organização.

criação de site